No último fim de semana ocorreu mais um episódio bizarro de violência no Rio de Janeiro e, além das óbviamente trágicas perdas humanas, tivemos um bombardeio de textos assinados por pseudo-especialistas em segurança pública ou simplesmente palpiteiros de plantão. Eu me enquadro nesse último caso.
A diferença no meu caso é que tenho plena noção de que não conheço a solução para o problema da violência. Não tenho nenhuma idéia de como trazer paz para a cidade. O triste é que, usando um pouco de lógica, fica claro que os governantes sabem exatamente o mesmo que eu.
Fiz uma retrospectiva mental tentando recordar uma época em que a violência do Rio de Janeiro não era parte expressiva do meu dia-a-dia. A primeira vez que eu lembro de me preocupar com isso foi lá pelos idos de 91, quando me mudei para um prédio com vista frontal para o morro da mangueira. Eu tinha 10 anos e a preocupação dos meus pais com balas perdidas era constante. Embora nunca tenha acontecido, era uma preocupação totalmente justificada. Pouco depois houve a Rio-92, do qual guardo como lembrança militares nas ruas e umas colméias verde-brancas que ficavam no Aterro do Flamengo.
Desde então, em média a cada período de poucos meses acontece alguma coisa ‘chapa-quente’ na cidade. Arrastão na praia, arrastão no túnel, tiroteio, maluco sequestrando ônibus, tiroteio, arrastão no túnel, etc. Já tive que voltar de ré pela Av. Brasil vindo da Ilha porque havia troca de tiros entre os dois lados da pista. Curiosamente a melhor lembrança que guardo do episódio é a de um motorista de uma kombi xingando eu e os demais que voltavam de ‘playboyzinhos frescos de merda’ por estarmos bagunçando o trânsito ao invés de ir em frente.
Então estamos assim, de 91 pra cá são 18 anos. Provavelmente antes disso a minha ingenuidade infantil me poupava dessa sensação de insegurança, mas vou considerar que há 18 anos estamos na mesma merda que estamos hoje. Fica claro que o governo (não só o atual, mas todos nesse período) também não tem a menor idéia de como resolver a parada. Durante todos esses anos, os atos de violência praticados pelos traficantes resultaram em variações da mesma resposta pelas autoridades: subir as favelas por um período determinado. As vezes uma ou outra perfumaria é realizada, como um dirigível ou um negócio aí chamado UPP.
Então eu pergunto: será que não ficou claro que precisamos de outra tipo de resposta? Vejam bem que eu não sei o que fazer pra resolver, mas eu sei muito bem o que NÃO fazer. (R: exatamente o que têm sido feito). Esse papo de ocupar favela, apreender meia duzia de fuzil e o caralho-a-sete não funciona porracaralhoputaquepariu. Todas essas ações sociais que acontecem nas comunidades carentes são extremamente importantes e bem-vindas, mas a função delas não é resolver o problema da violência, embora contribuam para tal no longo (longuíssimo, longíncuo) prazo depois de muita masturbação filosófico-social.
Não é possível que ninguém no governo não saiba o que fazer, não é possível que todos sejam burros que nem eu há mais de 18 anos. Acho lindo ler políticos do governo falando que o que aconteceu no último sábado é produto de anos de descaso dos governos; como se fosse uma novidade ou, ainda pior, como se de agora em diante o problema fosse começar a ser resolvido. A solução existe, só não nos foi apresentada ainda. Triste é ver que nós testamos a mesma solução há (pelo menos) 18 anos e reclamamos que o problema não desapareceu como que por mágica